Sou filho de médico. E meu pai, com a sabedoria daqueles que não tem medo de encarar a verdade, costumava dizer que não há medicina à prova de acidentes.
Ele falava de riscos, de iniciativas que embora acertadas não produziram o resultado esperado. Mesmo assim, os médicos seguem trabalhando e está certo.
Só que isso não tem a ver com as lipos. Estamos falando de cirurgias de risco, cujo único benefício assegurado é o pagamento de bons honorários a nossos doutores de branco.
Sou a favor ao pagamento de bons honorários aos médicos. Graças a eles, aliás, meu pai pode me assegurar uma existência com saúde e conforto. Quem garante que eu poderia estar aqui, escrevendo num blogue, para tantos leitores simpáticos, se não tivesse recebido esse auxilio que ele me deu?
O problema é quando a medicina é feita sem maiores cuidados. Neste caso, ela se aproxima do charlatanismo. Num caso hoje lendário, na metade do século passado, nos Estados Unidos, um médico prometia curas miraculosas a seus pacientes e promovia cirurgias que eram pura aberração — ficou milionário e construiu clínicas em vários pontos do país, embora a maioria saisse da mesa de operação diretamente para o cemitério.
Em nota anterior, defendi que, em função do número escandaloso de mortes que ocorrem pelo país, o ministro da Saúde tome a iniciativa de proibir as lipos, pelo menos enquanto não houver segurança em seus resultados e o índice de riscos for muito mais baixo do que o atual.
É uma atitude dura mas não é inedita. Por iniciativa de entidades médicas, desde novembro que as cirurgias de redução de estômago deixou de ser recomendada para todos os pacientes que sofrem de diabetes, como acontecia até então. Após uma nova morte, um médico de Goiás que empregava uma técnica particular de cirurgia para o diabetes foi proibido de seguir nesse tipo de tratamento, por decisão da Justiça.
Na quinta-feira passada, a Câmara Técnica de Cirurgia Plástica do Conselho Federal de Medicina decidiu elaborar um protocolo de segurança para cirurgia plástica, uma espécie de checklist de segurança, já adotado em vários países. Conforme nota distribuída a imprensa, “o documento poderá abranger, por exemplo, orientações de indicações cirúrgicas, exames pré-operatórios, anestesia, atendimento pós-cirúrgico e condições do local. O projeto será implementado em parceria com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).”
Coordenador dos trabalhos sobre o assunto, Antonio Gonçalves Pinheiro diz: “Vemos disponibilizados cursos de lipoaspiração de final de semana, com um dia de atividade teórica e dois dias de atividade prática. Esse tipo de curso não qualifica nenhum médico. A maioria dos casos em que há complicações envolve médicos com esse tipo de treinamento, que considero nulo”.
Pinheiro lembra que na nota que “exercer medicina é responsabilidade constante. Ambos, médico e paciente, tem que ter consciência do tamanho do risco de uma cirurgia plástica. É preciso um criterioso exame pré-operatório e um local adequado com recursos para manutenção de todos os procedimentos para atender qualquer intercorrência. O risco deve ser ínfimo em relação ao benefício”.
O critério é este: risco mínimo em relação ao benefício esperado. Alguem dúvida que estamos muito longe disso?